Toda frase acaba num riso de autoironia. Clarícifer 66.6 FM Tornado (live) by Jónsi Sinking Friendships (live) by Jónsi Go Do (live) by Jónsi O Amanhã Colorido (ao vivo) por Pouca Vogal When I Grow Up (To Be A Man) by The Beach Boys The Frog Prince by Keane On Melancholy Hill by Gorillaz I’m Outta Time by Oasis Paciência por Lenine Codex by Radiohead Lover’s Spit by Broken Social Scene Leave by R.E.M. Down By The Water by PJ Harvey A Dança por Legião Urbana Plug In Baby by Muse While My Guitar Gently Weeps by The Beatles I’m The Highway by Audioslave Inside Job by Pearl Jam A Seta E O Alvo por Paulinho Moska The Limit To Your Love by Feist Don’t Be Shy by Yusuf Islam (Cat Stevens) Atoms For Peace by Thom Yorke Tudo Vai Ficar Bem por Pato Fu & Andrea Echeverri La Vida Tómbola por Manu Chao El Derecho Al Delirio por Eduardo Galeano O Mundo por Paulinho Moska, Zeca Baleiro, Lenine & Chico César Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero) por O Rappa A Violência Travestida Faz Seu Trottoir por Engenheiros do Hawaii Alucinação (Belchior cover) por Engenheiros do Hawaii The Fixer by Pearl Jam Love, Reign O’er Me by The Who Politik by Coldplay To Build A Home by The Cinematic Orchestra Minha Casa por Zeca Baleiro 6 Minutos por Otto Senhas por Adriana Calcanhotto Poema Em Linha Reta de Álvaro De Campos (Fernando Pessoa) por Paulo Autran Lost For Words by Pink Floyd Fearless by Pink Floyd True Love Will Find You In The End by Daniel Johnston Passerà (Aleandro Baldi cover) por Renato Russo If There Is A God by The Smashing Pumpkins Se Eu Quiser Falar Com Deus (ao vivo) por Elis Regina De Onde Vem A Calma por Los Hermanos The Quiet Ones by Oasis Senza Parole por Vasco Rossi Nightswimming by R.E.M. No Name #3 by Elliott Smith From The Morning by Nick Drake

Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual...


"É certo que sou uma selva e uma noite de escuras árvores; mas aquele que não temer a minha obscuridade encontrará sob os meus ciprestes sendas de rosas"
Nietzsche




Um cão anda em círculos atrás do próprio rabo

As boas novas eram só boatos?

Humores




Nem tudo está perdido. Nem sinal de pedra no peito. O horóscopo do jornal arriscou 'um belo dia'. Liguei o rádio na hora certa: era a canção que eu queria.


e-Stória


Estou ligado a cabo a tudo que acaba de acontecer...


Somos quem podemos ser

Meu perfil



Se eu fosse diferente... sabe lá como eu seria!


Dom Quixote



Muito prazer, ao seu dispor se for por amor às causas perdidas...


Em linhas tortas

top 5

Toda frase acaba num riso de autoironia.


Sopa de letrinhas

Si linguis hominum loquar
livros

Eles odeiam Albert Camus, eles só querem ler gibi...


Filmes de guerra, canções de amor





Se alguém, seja lá quem for, tiver que morrer, na guerra ou no amor, não me peça pra entender... não me peça pra escolher entre o fio ciumento da navalha e o frio de um campo de batalha...


Beijos pra torcida

Fãs de Alex

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione: uma garota, um bom combate, um gol aos 46!


Longe demais das capitais

Sobre Intermares

Nossa cidade é tão pequena e tão ingênua, tão distante do horizonte do país.


Todo mundo é uma ilha

Amigos



Não interessa o que diz o ditado, não interessa o que o Estado diz; nós falamos outra língua, moramos em outro país.


Déjà vu nunca visto

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O futuro se impõe, o passado não se aguenta...


E eu, o que faço com esses números?



Você é
1/
da humanidade.

Sondas e radares não captarão, revisores ortográficos também não.








"A gente se desfaz de uma neurose, mas não se cura de si próprio"
Sartre

Por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior.

 






venerdì, gennaio 31, 2014
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


Irradiação fóssil

Eu, aqui a postos, com meu monóculo, na vã esperança das nuvens deslizarem à oeste. Desvio o olhar, tento a leitura inútil sobre rochas e fluidos, então volto à sentinela celestial e noto que os ventos sopraram pro lado oposto da minha torcida. E mesmo se não o fizessem, eu não acharia a constelação. E ainda que a localizasse, o horizonte está fosco para o brilho de qualquer supernova. Minha desculpa para não dormir: rochas de centenas de milhões de anos e o brilho de um passado de dezenas de outros milhões. Mas não é o passado remoto que importa. É uma mentira. Grandiosa, porém uma mentira. Quero mesmo emendar 3 dias sem dormir, vagar como um zumbi, embananar-me com as datas do mês e dos radiocarbonos. Ficar tão exausta que só venha a cochilar na água, num átimo, de papo pro ar. Talvez assim quebre a sequência de pesadelos, tão sadicamente elaborados que um fio a menos de ceticismo traria a crença indubitável de algum mal maior, embora aqui e agora seja mais imperceptível do que a luz que nunca transporia as nuvens.

O tempo pode ser linear nessa limitada e única realidade que admitimos, nesse estado de vigília interrompido pelos momentos em que a consciência expande-se em tempo-espaço - os quais também se expandem em diversas dimensões, sobrepostas ou não, vai saber. Se o cético pauta-se pela razão, admitindo que todos os átomos da matéria voltam aos seus ciclos biogeoquímicos, sobra-lhe apenas a consciência (material, ondulatória ou dual?). Talvez não seja muito cético ignorar os únicos intervalos, na escala linear, em que a consciência - a única cuja natureza e cujo fim desconheço - quebra a linearidade. Por medo do meu ceticismo, prendo-me à ilusão da realidade palpável até que meu corpo venha a ceder e me devolva à consciência de um passado não tão remoto ou um futuro não muito longínquo ou talvez um presente concomitante, indo e vindo pelos espaços enquanto, na vigília, encontra-se anestesiado meu único presente admitido. Prendo-me à falácia do que condicionei como "real" até que me tomem os pesadelos horrendamente mais reais do que a realidade limitada que se insere no pequeno ínterim entre nascimento e morte. Velo essa realidade pretensamente inquestionável até que eu titubeie e quase ouça, na minha mente sonolenta semidesperta, ou realmente escute, na minha consciência onírica, a voz da minha mãe dizendo: "seu mal é sono".



Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 04:01.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








venerdì, gennaio 17, 2014
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


A última pergunta

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, na época em que a humanidade começava sua caminhada na direção da luz. A pergunta surgiu em consequência de uma aposta de cinco dólares entre duas pessoas que tinham exagerado no uísque com soda, e aconteceu da maneira que se segue.

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois fiéis servidores de Multivac. Como qualquer ser humano, eles sabiam o que se escondia por trás da fria, ruidosa e faiscante fachada - milhas e milhas de fachada - daquele gigantesco computador. Mas não tinham mais do que uma vaga noção do plano geral de relês e circuitos que há muito tempo havia se desenvolvido a ponto de não poder mais ser totalmente controlado por um simples mortal.

Multivac era auto-ajustável e auto-regulável. Tinha que ser assim, já que nenhum homem poderia ajustá-lo e regulá-lo adequadamente, ou com a rapidez necessária.

Por isso, Adell e Lupov cuidavam do monstruoso gigante apenas superficialmente, mas com impecável competência. Alimentavam-no com dados, adaptavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que ele emitia. Certamente, eles, e todos os outros como eles, tinham total liberdade para partilhar das gloriosas conquistas de Multivac.

Durante décadas Multivac tinha ajudado a projetar as naves e a delinear as trajetórias que permitiram que o homem alcançasse a Lua, Marte e Vênus; mas, a partir daí, os escassos recursos da Terra não eram suficientes para prover as naves, que precisavam de muito combustível para fazer viagens mais longas. A Terra explorava seu carvão e seu urânio, com uma eficiência cada vez maior, mas essas reservas estavam se esgotando.

Mas aos poucos Multivac acumulou conhecimento suficiente para analisar questões importantes com mais fundamento, e no dia 14 de maio de 2061, o que era apenas uma teoria transformou-se num fato.

A energia do Sol foi armazenada, convertida e utilizada numa escala planetária. Toda a Terra desligou os fornos de carvão e as usinas nucleares e acionou os sistemas que conectavam tudo o que havia nela a uma pequena estação, com uma milha de diâmetro, que girava em torno do planeta num ponto equidistante entre a Terra e a Lua. Toda a Terra passou a funcionar movida pelos invisíveis raios de energia solar.

Sete dias não foram suficientes para ofuscar a glória desse feito. Adell e Lupov finalmente conseguindo escapar das solenidades públicas, encontraram-se a sós num lugar em que ninguém pensaria em procurá-los, as desertas câmeras subterrâneas, onde podiam ver as partes abandonadas do poderoso corpo de Multivac. Esquecido, preguiçoso, classificando dados com um clique-claque de satisfação, Multivac também merecia umas férias - e os rapazes respeitavam esse direito. Em princípio, não tinham intenção de perturbá-lo.

Traziam uma garrafa de bebida e tudo o que desejavam naquele momento era relaxar juntos enquanto tomavam uns tragos.

- É surpreendente pensar nisso - disse Adell. Seu rosto largo apresentava sinais de cansaço, e ele mexia calmamente seu drinque com um bastão de vidro, observando as pedras de gelo chocando-se dentro do copo. - Agora temos toda a energia de que precisamos, podemos usá-la à vontade. É tanta energia que, se quiséssemos, poderíamos transformar a Terra numa imensa massa de ferro impuro derretido, e ainda assim ela não acabaria. Toda a energia que viermos a precisar, para sempre, para todo o sempre.

Lupov levantou a cabeça e olhou meio de lado. Ele tinha o costume de fazer isso quando queria contestar alguém, como pretendia fazer agora, em parte porque tivera que carregar os copos e o gelo.

- Para sempre, não - disse ele.

- É quase isso, cara. Até que o Sol se apague, Bert.

- Isso não é para sempre.

- Tá bom, tá bom. Bilhões e bilhões de anos. Talvez vinte bilhões de anos. Está satisfeito?

Lupov passou os dedos entre os seus raros cabelos, como estivesse se certificando de que ainda restavam alguns fios, e sorveu seu drinque lentamente.

- Vinte bilhões de anos não são a eternidade.

- Bem, a gente não vai viver tanto tempo assim, vai?

- Se fosse por causa disso poderíamos continuar com o carvão e o urânio.

- Tudo bem, mas agora podemos ligar nossas espaçonaves na Estação Solar e ir e voltar para Plutão milhões de vezes sem nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria isso com o carvão e o urânio. Pergunte a Multivac, já que você não acredita em mim.

- Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso.

- Então, não menospreze o que Multivac fez por nós - disse Adell, inflamado. - Ele foi brilhante.

- Quem disse que não? O que eu disse foi que o Sol não durará para sempre. Foi apenas isso que eu disse. Nós estamos garantidos por vinte bilhões de anos. E depois disso? - Lupov apontou um dedo meio trêmulo para o amigo. - E não venha me dizer que podemos recorrer a outro sol.

Os dois ficaram em silêncio durante um tempo. De vez em quando Adell levava seu copo à boca, e aos poucos os olhos de Lupov foram se fechando. Estavam totalmente relaxados.

De repente, Lupov abriu os olhos.

- Você está pensando que um dia recorreremos a outro sol, não é?

- Não estou pensando em nada.

- É claro que você pensou nisso. Seu forte não é lógica, esse é o seu problema. Você é como o cara daquela história que, no meio de um inesperado temporal, correu na direção de um grupo de árvores e se protegeu embaixo de uma delas. Ele não estava preocupado porque imaginava que quando uma árvore ficasse molhada iria para baixo de outra.

- Eu entendi - disse Adell. - Não precisa gritar. Quando o Sol apagar, as estrelas também terão apagado.

- Ora, se terão - resmungou Lupov. - Isso tudo começou com a explosão cósmica original, o que quer que tenha sido isso, e terá um fim quando todas as estrelas se apagarem. Algumas se apagarão antes das outras. Diabo, as gigantes não durarão mais do que cem milhões de anos. O Sol durará vinte bilhões de anos e talvez as anãs cem bilhões de anos, por melhores que sejam. Mas em um trilhão de anos tudo estará escuro. Mais cedo ou mais tarde, a entropia vai chegar a seu ponto máximo.

- Sei tudo sobre entropia - disse Adell, defendendo seu orgulho.

- Sabe uma ova!

- Sei tanto quanto você.

- Então admita que todas as coisas um dia terão um fim.

- Tudo bem. Quem disse que não?

- Você, seu bobão. Você disse que teremos para sempre toda a energia de que precisarmos. Você disse para sempre.

Era a vez de Adell provocar.

- Algum dia talvez possamos recomeçar tudo de novo - disse ele.

- Nunca.

- Por que não? Algum dia...

- Pergunte a Multivac.

- Nunca.

- Você pergunta a Multivac. Eu aposto. Quer valer cinco dólares como Multivac vai dizer que isso é impossível?

Adell estava bêbado o suficiente para tentar, mas não ao ponto de ser incapaz de digitar os símbolos e operações necessários para formular uma pergunta que, em palavras, corresponderia a isso: quando a rede de energia estiver totalmente saturada, a humanidade será capaz de restituir a força do Sol, mesmo depois de ele ter perdido todo o seu vigor?

Ou talvez isso pudesse ser colocado de uma maneira mais simples: o sistema de entropia do Universo pode ser revertido?

Multivac caiu num silêncio profundo. O lento piscar de luzes parou, da mesma forma como os fracos estalos dos relês.

Então, quando os assustados técnicos não podiam mais prender a respiração, a impressora atrelada àquela parte de Multivac voltou a funcionar repentinamente. Cinco palavras foram impressas: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

- Ainda não - sussurrou Lupov, e saíram correndo daquele lugar.

Na manhã seguinte, eles, com a boca ressecada e a cabeça latejando, tinham esquecido o incidente.


Jerrodd, Jerrodine e Jerrodette I e II estavam observando as mudanças na estrelada paisagem pelo visor à medida que a viagem através do hiper espaço ia-se consumando em frações de segundos. Logo o brilho de um disco marmóreo se destacou no meio da miríade de estrelas.

- Isso é o X-23 - disse Jerrodd, com convicção. Apertou firmemente suas mãos finas atrás das costas de tal modo que as juntas dos dedos embranqueceram.

As pequenas Jerrodettes estavam atravessando o hiper espaço pela primeira vez em suas vidas, e se sentiram importantes ao perceber que tinham entrado na órbita de um novo planeta. Elas esqueceram suas brincadeiras e, excitadas, começaram a pular em volta da mãe.

- Chegamos em X-23! - gritaram. - Chegamos em X-23! Chegamos...

- Silêncio, crianças – interrompeu-as Jerrodine, rispidamente. - Você tem certeza, Jerrodd?

- Você já viu Microvac errar alguma vez? - perguntou Jerrodd, olhando para a inexpressiva massa de metal um pouco abaixo do teto. Ela ia de uma ponta a outra da sala, desaparecendo através das paredes. Era tão comprida quanto a nave.

Jerrodd não sabia muita coisa a respeito daquela volumosa estrutura metálica. Sabia apenas que se chamava Microvac e que as pessoas podiam lhe fazer qualquer tipo de pergunta; também tinha a incumbência de guiar a nave para um destino predeterminado, abastecê-la com energia das várias estações de força subgalácticas e processar os dados necessários para as travessias hiperespaciais.

Jerrodd e sua família tinham apenas que esperar enquanto viviam nas confortáveis alas residenciais da nave.

Uma vez, alguém disse para Jerrodd que o "AC" de Microvac eram as iniciais de analog computer em inglês arcaico, mas ele mal se lembrava disso.

Os olhos de Jerrodine lacrimejaram enquanto ela olhava pelo visor.

- Estou emocionada. É tão estranho deixar a Terra.

- Pelo amor de Deus, Jerrodine - interpelou Jerrodd. - Não tínhamos nada lá. Vamos ter tudo em X-23. Você não estará sozinha nem será uma prisioneira. Já tem mais de um milhão de pessoas no planeta. Santo Deus, nossos bisnetos vão procurar novos mundos porque X-23 estará apinhado de gente.

Refletiu um pouco e acrescentou:

- Do jeito que a humanidade está se multiplicando, é uma sorte que os computadores possam programar viagens interestelares.

- Eu sei, eu sei - disse Jerrodine, deprimida.

- Nosso Microvac é o melhor Microvac do mundo – disse Jerrodette, intrometendo-se.

- Concordo com você - disse Jerrodd, fazendo um carinho no cabelo da garota.

Era uma agradável sensação ter seu próprio Microvac e Jerrodd sentia-se feliz por pertencer a essa geração. Quando seu pai era jovem, só havia computadores gigantescos, que se espalhavam por centenas de milhas. Só podia haver um por planeta. Eram chamados AC Planetário. Durante milhares de anos, eles vinham aumentando de tamanho continuamente, mas, de repente, se sofisticaram. No lugar dos transistores, vieram as válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos AC Planetários pudesse caber num espaço equivalente a apenas metade de uma nave.

Jerrodd rejubilou-se, o que acontecia sempre quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o velho e primitivo Multivac que começou a explorar a energia solar e quase tão complexo quanto o AC Planetário (o maior da Terra) que tinha resolvido o problema das travessias hiperespaciais, tornando possíveis as viagens interestelares.

- Tantos planetas, tantas estrelas - suspirou Jerrodine, ocupada com seus próprios pensamentos. - Acho que sempre haverá famílias procurando novos planetas, assim como nós estamos fazendo agora.

- Não para sempre - disse Jerrodd, sorrindo. - Algum dia isso acabará, mesmo que demore bilhões de anos. Muitos bilhões de anos. Até as estrelas se acabam, você sabe. A entropia um dia vai chegar ao seu ponto máximo.

- O que é entropia, papai? - perguntou Jerrodette II, com voz estridente.

- Querida, entropia é só uma palavra, que significa a quantidade de energia gasta pelo Universo. Tudo um dia se acaba, assim como seu pequeno robô, lembra?

- Você não pode colocar uma bateria nova, como fez com meu robô?

- As estrelas são baterias, meu amor. Depois que elas se acabam não há mais baterias.

Jerrodette I abriu um berreiro.

- Não deixe que isso aconteça, papai. Não deixe que as estrelas se acabem.

- Veja só o que você fez - sussurrou Jerrodine, exasperada.

- Como é que eu ia saber que isso ia assustá-las? - sussurrou Jerrodd de volta.

- Pergunte a Microvac - gemeu Jerrodette I. - Pergunte a ele como pode acender as estrelas de novo.

- Faça isso - disse Jerrodine. - Isso vai acalmá-las. (Jerrodette II também estava começando a chorar.)

Jerrodd deu de ombros.

- Calma, crianças. Eu perguntarei a Microvac. Não se preocupem, ele nos explicará.

Ele fez a pergunta a Microvac, acrescentando rapidamente: imprima a resposta.

Jerrodd escondeu na palma da mão o pequeno pedaço de celuloide e disse alegremente:

- Vejam, meninas. Multivac diz que quando chegar a hora tomará conta de tudo. Não se preocupem.

- Agora, crianças - disse Jerrodine, - hora de ir para a cama. Logo chegaremos a nossa casa nova.

Jerrodd leu as palavras do celuloide antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA

Ele deu de ombros e olhou pelo visor. X-23 estava bem em frente.


VJ-23X de Lameth olhou fixamente para as profundezas negras do mapa da Galáxia em pequena escala tridimensional e disse:

- Pergunto a mim mesmo se não estamos sendo ridículos em ficarmos tão preocupados com esse problema.

Nicron balançou a cabeça.

- Acho que não. Você sabe que a Galáxia estará superlotada em cinco anos, se continuar crescendo na taxa atual.

Os dois pareciam ter um pouco mais de 20 anos, eram altos e tinham uma boa constituição física.

- Mesmo assim... - disse VJ-23X. - Receio ter que mandar um relatório pessimista para o Conselho Galáctico.

- Eu não pensaria em outro tipo de relatório. Vamos agitá-los um pouco. Temos que fazer isso.

VJ-23X suspirou.

- O espaço é infinito. Ainda há pelo menos 100 bilhões de Galáxias para serem exploradas.

- Cem bilhões não são o infinito e, à medida que o tempo passa, vão-se tornando mais finitos ainda. Pense a respeito disso! Há 20 mil anos, a humanidade resolveu o problema da utilização de energia estrelar; alguns séculos depois, as viagens interestelares se tornaram possíveis. A humanidade levou um milhão de anos para povoar um pequeno mundo; depois disso, precisou de apenas 15 mil anos para povoar o resto da Galáxia. Agora, a cada 10 anos, a população dobra...

- Graças à imortalidade - interrompeu-o VJ-23X.

- Muito bem. A imortalidade existe e temos que levar isso em conta. Admito que ela tenha o seu lado desagradável. O AC Galáctico resolveu muitos problemas para a gente, mas, ao resolver o problema da velhice e da morte, deixou-nos sem solução para os outros.

- Ainda assim, você não gostaria de abandonar a vida, acho eu.

- De jeito nenhum - vociferou MQ-17J, suavizando em seguida. - Pelo menos por enquanto. Ainda estou muito novo. Quantos anos você tem?

- Estou com 223. E você?

- Ainda não fiz nem duzentos. Mas vamos voltar para o ponto. A população dobra a cada dez anos. Uma vez que essa Galáxia esteja superlotada, iremos superlotar uma outra em mais dez anos. Com mais dez anos teremos mais duas Galáxias superlotadas. Outra década, quatro novas Galáxias. Em cem anos, teremos superlotado mil Galáxias. Em mil, um milhão de Galáxias. Em dez mil anos, todo o Universo. E depois?

- Além disso - disse VJ-23X, - ainda tem o problema dos transportes. Eu me pergunto quantas unidades de força solar serão necessárias para transportar Galáxias de indivíduos de uma Galáxia para a outra.

- Esse é assunto muito importante. Nesse momento, a humanidade já consome duas unidades de força solar por ano.

- A maior parte dela é desperdiçada. Afinal, só nossa Galáxia produz mil unidades de força solar por ano e nós usamos apenas duas delas.

- Concordo, mas mesmo que tivéssemos um aproveitamento de cem por cento, estaríamos apenas adiando o final. Nossa necessidade de energia está crescendo numa proporção geométrica mais rápida ainda do que a de nossa população. Ficaremos sem energia antes mesmo de começarmos a nos preocupar com as Galáxias. Boa questão. Muito boa mesmo.

- Teremos que construir novas estrelas com gases interestelares.

- Ou reaproveitando o calor? - perguntou MQ-17J, sarcástico.

- Talvez haja uma maneira de reverter a entropia. Podemos fazer essa pergunta ao AC Galáctico.

VJ-23X não estava falando sério, mas MQ-17J tirou seu cartão de entrada do AC e colocou-o em cima da mesa, à sua frente.

- Eu já estava pensando nisso - disse ele. - Esse é o tipo de coisa que, algum dia, a humanidade terá que enfrentar.

Encarou sombriamente o seu pequeno cartão. Ele tinha apenas duas polegadas cúbicas, e não havia nada dentro dele, mas estava conectado, através do hiperespaço, com o grande AC Galáctico que servia a toda a humanidade. Considerando o hiperespaço, ele era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J se perguntou se, em algum dia de sua vida imortal, veria o AC Galáctico de perto. A máquina ficava num pequeno mundo à parte, numa emaranhada rede de raios de força, que alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons tomavam o lugar das velhas e primitivas válvulas moleculares. A despeito de seus componentes subetéricos, sabia-se que o AC Galáctico tinha trezentos metros de comprimento.

MQ-17J perguntou subitamente ao seu cartão.

- A entropia pode ser revertida?

VJ-23X arregalou os olhos e disse, espantado:

- Não tinha a intenção de fazer com que você perguntasse isso.

- Por que não?

- Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode fazer com que a fumaça e as cinzas voltem a ser uma árvore.

- Há árvores no seu mundo? - perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico os silenciou. Sua voz fina e bonita saiu do pequeno cartão em cima da mesa. Ele disse:

- NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

- Veja - disse VJ-23X.

Com isso, os dois homens voltaram ao problema do relatório que tinham que entregar para o Conselho Galáctico.


A mente de Zee Prime abarcou a nova Galáxia com um leve interesse nas incontáveis constelações que a pontilhavam. Ele nunca tinha visto essa Galáxia antes. Será que algum dia veria todas elas? Eram tantas, cada uma delas com sua carga de humanidade. Mas uma carga que era quase como um peso morto. Cada vez mais, a essência verdadeira do homem se encontrava aqui fora, no espaço.

Mentes, não corpos! Os corpos imortais permaneciam lá nos planetas, em suspensão através dos éons. Algumas vezes, eles despertavam para atividades materiais, mas isso estava se tornando cada vez mais raro. Poucos novos indivíduos estavam adquirindo o direito de existir e se juntar a uma multidão incrivelmente poderosa, mas o que importava? Havia pouco espaço no Universo para novos indivíduos.

Zee Prime foi acordado de seus devaneios ao cruzar com o filamento de uma outra mente.

- Eu sou Zee Prime - disse ele. - E você?

- Eu sou Dee Sub Wun. É sua Galáxia?

- Nós a chamamos apenas de Galáxia. E a sua?

- Nós a chamamos assim também. Todos os homens chamam suas Galáxias de Galáxia, nada mais. Por que não?

- É verdade. Todas as Galáxias são iguais.

- Nem todas as Galáxias. A raça humana deve ser oriunda de uma galáxia específica. Isso a faz diferente.

- Qual delas? - perguntou Zee Prime.

- Não sei dizer. O AC Universal deve saber.

- Vamos perguntar isso a ele. De repente fiquei curioso.

A consciência de Zee Prime se espalhou pelas Galáxias, até que elas se tornaram minúsculas, dando lugar a uma nova miríade, mais difusa, sobre um fundo muito maior.

Centenas de bilhões delas, todas com seus seres imortais, todas carregando sua carga de inteligência, com mentes que flutuavam livremente através do espaço.

E ainda assim uma delas era única entre todas porque era a Galáxia original.

Uma delas teve, num passado vago e distante, um período em que foi a única Galáxia habitada pelo homem.

Zee Prime foi consumido pela curiosidade de conhecer essa Galáxia.

- AC Universal! - gritou ele. - De que Galáxia a humanidade se originou?

AC Universal ouviu, pois tinha um receptor em todos os mundos do Universo, e esse receptor se comunicava, através do hiperespaço, com algum lugar desconhecido, no qual AC Universal trabalhava silenciosamente.

Zee Prime sabia de apenas um homem cujos pensamentos tinham alcançado um ponto em que se pudesse sentir o AC Universal, e ele falou apenas de um globo brilhante, com menos de um metro de diâmetro, que mal dava para ser visto.

- Como é que AC Universal pode ser só isso? - perguntou Zee Prime.

- A maior parte dele - tinha sido a resposta - está no hiper espaço. Só não posso imaginar que forma ele adquire ali.

Nem ninguém poderia, pois Zee Prime sabia que muito tempo havia passado desde o dia em que algum homem participara da criação de um AC Universal. A partir de então, cada AC Universal projetou e construiu seu sucessor. Cada um, durante uma experiência de um milhão de anos ou mais, acumulava os dados necessários para construir um sucessor ainda melhor, mais complexo e mais capaz, ao qual incorporavam seu próprio banco de dados e suas características.

AC Universal interrompeu o devaneio dos pensamentos de Zee Prime não com palavras, mas com sinais. A mente de Zee Prime foi conduzida através do reluzente mar de Galáxias, e uma, em particular, cresceu até transformar-se em estrelas.

Um pensamento veio a seu encontro, infinitamente distante, mas infinitamente claro: "ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM".

Mas, no fim das contas, essa era igual a todas, tão igual quanto qualquer outra. Zee Prime reprimiu seu desapontamento.

Dee Sub Wun, cuja mente tinha acompanhado a de Zee Prime, disse repentinamente:

- Alguma dessas estrelas é a estrela original do Homem?

AC Universal disse:

- A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM SE TRANSFORMOU NUMA NOVA. AGORA É UMA ANÃ BRANCA.

- Os homens que estavam nela morreram? - perguntou Zee Prime, perplexo, sem saber o que pensar.

- Nesses casos, um novo mundo é construído para seus corpos físicos.

- Sim, é claro - disse Zee Prime, mas uma sensação de perda o oprimiu mesmo assim. Sua mente libertou-se dos laços com a Galáxia Original do Homem, deixando que flutuasse de volta para o seu lugar e se perdesse entre as minúsculas manchas do Universo. Não queria vê-la nunca mais.

- O que está errado? - perguntou Dee Sub Wun.

- As estrelas estão morrendo. A estrela original está morta.

- Todas elas morrerão. Por que não?

- Mas quando toda energia se acabar, nossos corpos também morrerão, e você e eu com eles.

- Mas isso levará bilhões de anos.

- Não quero que isso aconteça mesmo daqui a bilhões de anos. AC Universal! Existe alguma maneira de evitar a morte das estrelas?

Dee Sub Wun disse, num tom divertido:

- Você está querendo saber como se pode reverter a entropia?

E AC Universal respondeu:

- OS DADOS AINDA SÃO INSUFICIENTES PARA DAR UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Os pensamentos de Zee Prime voaram de volta para sua própria Galáxia. Ele cortou a transmissão de pensamentos para Dee Sub Wun, cujo corpo podia estar esperando numa Galáxia a um trilhão de anos-luz de distância, ou na estrela vizinha à do próprio Zee Prime. Isso não importava.

Deprimido, Zee Prime começou a colecionar hidrogênio interestrelar, com a intenção de construir uma pequena estrela só para ele. Se algum dia as estrelas deveriam morrer, ele podia, ao menos, construir algumas.


Homem pensou consigo mesmo, já que, de alguma forma, Homem, mentalmente, era único. Ele era feito de trilhões e trilhões e trilhões de corpos atemporais -, cada um no seu lugar, descansando tranqüilo e inalterável, cada um protegido por autômatos perfeitos, igualmente inalteráveis, enquanto as mentes de todos os corpos se fundiam livremente umas com as outras, indistinguíveis. Homem disse:

- O Universo está morrendo.

Homem olhou para a escuridão das Galáxias. As estrelas gigantes, esbanjadoras de energia, tinham-se apagado há muito, voltando para uma escuridão mais escura do que a de seu passado remoto. Agora, quase todas eram anãs brancas, condenadas ao fim.

Novas estrelas tinham sido construídas a partir da poeira interestelar, algumas através de um processo natural, outras por intermédio da ação do Homem, mas essas também estavam se acabando. As anãs brancas ainda podiam se chocar, e, da poderosa energia despendida no atrito, construir novas estrelas, mas apenas uma estrela para cada mil estrelas destruídas, e essas também caminhavam em direção ao fim.

Homem disse:

- Se seguirmos os conselhos de AC Cósmico e pouparmos cuidadosamente a energia que ainda resta no Universo, ela durará milhões de anos.

- Mas, mesmo assim - respondeu Homem - isso tudo vai acabar algum dia. Mesmo sendo poupada e reaproveitada, a energia gasta já se foi, não pode mais ser reconstruída. A entropia deve atingir seu ponto máximo.

Homem disse:

- A entropia não pode ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.

O AC Cósmico envolveu-os, mas não no espaço. Não restava nenhum fragmento dele no espaço. Ele estava no hiper espaço e era feito de alguma coisa que não era nem matéria nem energia. A discussão sobre o seu tamanho e sua natureza não tinha mais nenhum significado em quaisquer termos que Homem pudesse compreender.

- AC Cósmico - perguntou Homem, - é possível reverter a entropia?

AC Cósmico disse:

- OS DADOS AINDA SÃO INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Homem disse:

- Reúna dados adicionais.

O AC Cósmico disse:

- ESTOU FAZENDO ISSO HÁ CENTENAS DE BILHÕES DE ANOS. ESSA PERGUNTA FOI FEITA MUITAS VEZES A MEUS ANTECESSORES. TODOS OS DADOS QUE TENHO CONTINUAM INSUFICIENTES.

- Haverá algum tempo - disse Homem - em que os dados serão suficientes, ou esse problema é insolúvel em todas as circunstâncias possíveis?

O AC Cósmico disse:

- NENHUM   PROBLEMA   É   INSOLÚVEL   EM   TODAS  AS   CIRCUNSTÂNCIAS POSSÍVEIS.

Homem disse:

- Quando você terá dados suficientes para responder a essa pergunta?

O AC Cósmico disse:

- OS DADOS AINDA SÃO INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

- Você continuará trabalhando nisso? - perguntou Homem.

O AC Cósmico disse:

- SIM.

- Nós esperaremos - disse Homem.

As estrelas e as Galáxias morreram e se apagaram, e, depois de dez trilhões de anos de desgaste, o espaço ficou escuro.

Um por um, Homem se fundiu com AC, cada corpo físico foi perdendo sua identidade mental de uma tal maneira que não podia ser considerada uma perda, mas uma conquista.

A última mente de Homem fez uma pausa antes de se fundir, contemplando o espaço que, agora, não continha nada mais do que os resíduos da última estrela a se apagar e uma matéria incrivelmente tênue, agitada ao acaso pelas últimas ondas do calor que se dissipava assintoticamente, até o zero absoluto.

- AC, isso é o fim? - perguntou Homem. - Este caos não pode ser revertido novamente em Universo? Isso não pode ser feito?

AC disse:

- OS DADOS AINDA SÃO INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

A última mente de Homem fundiu-se e restou apenas AC - mas apenas no hiperespaço.

Matéria e energia tinham acabado, e com elas o espaço e o tempo. Mesmo AC só existia graças à última pergunta, que estava sem resposta desde que dois técnicos meio bêbados a tinham feito, há dez trilhões de anos, a um computador que, comparado a AC, era menos ainda do que o homem era para Homem.

Todas as outras perguntas tinham sido respondidas, e enquanto essa última pergunta não fosse respondida AC não poderia liberar sua consciência.

Todos os dados possíveis tinham sido coletados. Não existia mais nada a inserir.

Mas todos os dados já coletados ainda tinham que ser completamente correlacionados e confrontados com todas as combinações possíveis.

Um intervalo interminável se passou enquanto ele fazia isso.

Enfim, AC alcançou a resposta que permitiria reverter a entropia.

Agora não havia mais nenhum homem para quem AC pudesse dar a resposta da última pergunta. Não importa. A resposta - por demonstração - também cuidaria disso.

Durante outro intervalo interminável, AC pensou na melhor maneira de fazer isso. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência de AC abarcou tudo o que uma vez tinha sido o Universo e pairou sobre o que agora era o Caos. Passo a passo, isso devia ser feito.

E AC disse:

FAÇA-SE A LUZ!

E fez-se a Luz...


IN: ASIMOV, Isaac. Nove amanhãs.






variações sobre um mesmo tema
:
livrosIsaac AsimovNove amanhãsA última pergunta


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 10:12.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








mercoledì, gennaio 15, 2014
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


The water is clear and innocent

Tá difícil de resgatar o velho ímpeto de expressar algo mais visceral (outro dia, talvez, falo sobre), então reproduzo alguns diálogos. Tentarei ser fidedigna, até com os erros da espontaneidade.


Quebrando o silêncio em um só tempo de expiração:

- Confesso que odeio política e economia, por isso me interesso. Eu me interesso por tudo que quer me dobrar e me descartar. Eu não gosto sequer da ideia de sociedade ideal, mesmo que numa utopia. Pra mim a sociedade ideal seria a não-sociedade já que a política não é sequer um embate de homens, é um embate de forças. O homem alheio a essas forças não vale coisa alguma. A política e os negócios estragam tudo em que se metem. Esportes, ciência, academia, educação. Claro que ela se tornou necessária pra tudo, mas não vejo como benéfica por si. Se ela faz algo de bom é pra corrigir tudo que fez de mau ao instaurar suas forças. Os esportes, a ciência e a educação que podem contribuir pra política, não o contrário. A política "acertada" é a que corrige a "equivocada". Não sei como nem quando começou, mas a sociedade toda se fundamenta na ideia de que o outro sempre é um fdp ou parasita em potencial. Todas as demais existências ameaçam a "minha". Não sei como conseguem casar com o discurso de "amo conhecer pessoas e culturas". Eu tô longe de gostar de tanto calor humano, mas te juro que não vejo nada mais misantropo do que A sociedade.

Inspirei e prossegui:

- Não pretendia ir, mas começou a coçar. Eu me sinto incrivelmente bem sabendo que sou mais um corpo no qual atuam as mesmas forças que atuariam em qualquer outro nas mesmas condições. O empuxo... indiscriminatório... que me põe pra cima... literalmente... - sorrindo com o canto da boca.

- Eta ferro, deixo ela sozinha e ela bota pra ferver - replicando o sorriso com outro.

- Foi só um... um... espirro... - treplicando mais um.




Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 07:07.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








lunedì, gennaio 13, 2014
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


We're swimming in the blue

The night (mist) is full of dew

Até fevereiro, no mínimo, acabaram as madrugadas em chão frio de varanda - levando respingos de sereno - e as maratonas de videogame. Foram tão intensas que tem um polegar no meu calo.

Nem sei quantos dias passaram. Certa vez, os jogos vararam a noite. Até aí nada excepcional. O sol nasceu, os pássaros cantaram, então senti cheiro de frango assado e me assustei: "que larica é essa que tão comendo frango no café da manhã"? Já era, na verdade, meio-dia.

Nas noites de "departamento médico", sempre Jónsi, na varanda. É quase uma experiência metafísica ouvir este álbum:



Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 00:11.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








domenica, gennaio 05, 2014
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


This is just the sad version of us

You can't get what you want, but you can get me*


- Do you think they're real?
- Parallel universes? I think it's basic science. You know, if space is infinite, then everything is possible.
- Just somewhere out there, I'm what? I'm making pancakes? Or I'm at a water park?
- Yeah, both. You know, whatever. There are tons of you's out there and there's tons of me's floating around.
- Yeah. And this is just the sad version of us.
- Yeah, I guess.
- But there's other versions, and in these other versions, everything goes our way.
- Assuming you believe in science.
- I like that thought. It's nice. Somewhere out there I'm having a good time.

Curioso que tive uma conversa parecida recentemente. Não conheço o livro nem a peça, também não sei o que os críticos de qualquer coisa dizem; de toda forna achei o diálogo factível. É a abordagem mais comum para um adolescente e uma dona de casa ex-alguma-coisa-de-escritório-e-blazer-da-qual-não-me-lembro. Eles poderiam falar sobre quarks, incerteza quântica e etc, mas ficaria mais parecido com The Big Bang Theory do que com um drama, creio.




*
If you can't get what you want, then you come with me...





Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 16:31.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








SEÑOR FUTURO 
       usted
es la promesa
       que nuestros pasos persiguen
       queriendo sentido y destino
RECORDAR   
Del latín re-cordis,         
volver a pasar          
por el corazón
        




"A impossibilidade de constituir o mundo em unidade evoca aqueles lugares desertos e sem água onde o pensamento chega aos seus limites. O verdadeiro esforço é se sustentar ali na medida do possível e examinar de perto a vegetação barroca de suas regiões afastadas"

Camus




   
   
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