Toda frase acaba num riso de autoironia. Clarícifer 66.6 FM Tornado (live) by Jónsi Sinking Friendships (live) by Jónsi Go Do (live) by Jónsi O Amanhã Colorido (ao vivo) por Pouca Vogal When I Grow Up (To Be A Man) by The Beach Boys The Frog Prince by Keane On Melancholy Hill by Gorillaz I’m Outta Time by Oasis Paciência por Lenine Codex by Radiohead Lover’s Spit by Broken Social Scene Leave by R.E.M. Down By The Water by PJ Harvey A Dança por Legião Urbana Plug In Baby by Muse While My Guitar Gently Weeps by The Beatles I’m The Highway by Audioslave Inside Job by Pearl Jam A Seta E O Alvo por Paulinho Moska The Limit To Your Love by Feist Don’t Be Shy by Yusuf Islam (Cat Stevens) Atoms For Peace by Thom Yorke Tudo Vai Ficar Bem por Pato Fu & Andrea Echeverri La Vida Tómbola por Manu Chao El Derecho Al Delirio por Eduardo Galeano O Mundo por Paulinho Moska, Zeca Baleiro, Lenine & Chico César Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero) por O Rappa A Violência Travestida Faz Seu Trottoir por Engenheiros do Hawaii Alucinação (Belchior cover) por Engenheiros do Hawaii The Fixer by Pearl Jam Love, Reign O’er Me by The Who Politik by Coldplay To Build A Home by The Cinematic Orchestra Minha Casa por Zeca Baleiro 6 Minutos por Otto Senhas por Adriana Calcanhotto Poema Em Linha Reta de Álvaro De Campos (Fernando Pessoa) por Paulo Autran Lost For Words by Pink Floyd Fearless by Pink Floyd True Love Will Find You In The End by Daniel Johnston Passerà (Aleandro Baldi cover) por Renato Russo If There Is A God by The Smashing Pumpkins Se Eu Quiser Falar Com Deus (ao vivo) por Elis Regina De Onde Vem A Calma por Los Hermanos The Quiet Ones by Oasis Senza Parole por Vasco Rossi Nightswimming by R.E.M. No Name #3 by Elliott Smith From The Morning by Nick Drake

Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual...


"É certo que sou uma selva e uma noite de escuras árvores; mas aquele que não temer a minha obscuridade encontrará sob os meus ciprestes sendas de rosas"
Nietzsche




Um cão anda em círculos atrás do próprio rabo

As boas novas eram só boatos?

Humores




Nem tudo está perdido. Nem sinal de pedra no peito. O horóscopo do jornal arriscou 'um belo dia'. Liguei o rádio na hora certa: era a canção que eu queria.


e-Stória


Estou ligado a cabo a tudo que acaba de acontecer...


Somos quem podemos ser

Meu perfil



Se eu fosse diferente... sabe lá como eu seria!


Dom Quixote



Muito prazer, ao seu dispor se for por amor às causas perdidas...


Em linhas tortas

top 5

Toda frase acaba num riso de autoironia.


Sopa de letrinhas

Si linguis hominum loquar
livros

Eles odeiam Albert Camus, eles só querem ler gibi...


Filmes de guerra, canções de amor





Se alguém, seja lá quem for, tiver que morrer, na guerra ou no amor, não me peça pra entender... não me peça pra escolher entre o fio ciumento da navalha e o frio de um campo de batalha...


Beijos pra torcida

Fãs de Alex

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione: uma garota, um bom combate, um gol aos 46!


Longe demais das capitais

Sobre Intermares

Nossa cidade é tão pequena e tão ingênua, tão distante do horizonte do país.


Todo mundo é uma ilha

Amigos



Não interessa o que diz o ditado, não interessa o que o Estado diz; nós falamos outra língua, moramos em outro país.


Déjà vu nunca visto

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O futuro se impõe, o passado não se aguenta...


E eu, o que faço com esses números?



Você é
1/
da humanidade.

Sondas e radares não captarão, revisores ortográficos também não.








"A gente se desfaz de uma neurose, mas não se cura de si próprio"
Sartre

Por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior.

 






venerdì, giugno 19, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


A troubled cure for a troubled mind

A curta discografia que Nick Drake lançou em vida merece apreciação integral. E, de preferência, obedecendo ordem de faixas e cronologia dos álbuns. Nada mais lindamente simbólico do que iniciá-la com Time has told me ("time has told me not to ask for more, for someday our ocean will find its shore") e finalizá-la com From the morning ("and now we rise and we are everywhere, and now we rise from the ground"). Os três discos figuram, cronologicamente e na íntegra, no meu iPod desde que o adquiri. E não sairão.








Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 09:09.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








venerdì, giugno 12, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


All these people drinking lover's spit

Só pra ser engraçadinha. Ou azeda. Nem se trata de estado de espírito ou de momento, só meu legado pra humanidade.




variações sobre um mesmo tema
:


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 16:16.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








mercoledì, giugno 10, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


A day once dawned and it was beautiful

A day once dawned from the ground

"Boa noite... ou devo dizer, bom dia? A hora é vinte e cinco para as cinco e eu estive sentado aqui por algum tempo, na verdade...

(...)

Alguém espera que não, mas foi agradável, e é extremamente prazeroso sentar aqui, agora. Porque eu acho que há algo extraordinariamente bonito em se ver o amanhecer. Porque alguém conecta a escuridão com ir pra cama, claro... E quando alguém ainda está acordado quando amanhece, e é um novo dia e você ainda não foi pra cama, dormir, porque a noite equivale a dormir, assim fácil, e quando alguém ainda está acordado quando um novo dia começa, é algo de uma experiência engrandecedora, eu sempre achei.

Eu posso olhar pra fora da janela agora e aquela árvore lá fora é verde, enquanto que quando alguém vai pra cama, aquela árvore deve estar negra, claro. Tudo deve estar negro antes de alguém ir pra cama. Mas essa é, claro, a essência do romântico.

Bom, eu acho que estou saindo do ponto. Eu devo provavelmente parar agora porque, se não, eu devo começar meio que a surrealizar as coisas e histórias da vida, o que será terrivelmente tedioso. Então é aqui que eu devo meio que dizer boa noite, você sabe... Boa noite"

Monólogo de Nick Drake




variações sobre um mesmo tema
:
Nick DrakeFrom the morning


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 05:05.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








sabato, giugno 06, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


Um dia chega, enfim...

"Cresci no mar e a pobreza me foi faustosa; depois, quando perdi o mar, todos os luxos passaram a ter para mim aparência opaca e a miséria tornou-se intolerável. Desde então espero. Espero as naves do retorno, a morada das águas, o dia límpido. Aguardo pacientemente com todas as minhas forças muito bem brunidas. Quando me veem passar pelas ruas belas e sábias, admiro as paisagens, aplaudo como todo o mundo, dou a mão, mas não sou eu quem fala. Se recebo louvores, sonho um pouco; se me ofendem, espanto-me menos ainda. Depois, esqueço e sorrio a quem me ultraja ou então cumprimento com excessiva cortesia a quem estimo. Que fazer, se minha memória existe apenas para uma só imagem? Por fim, sou intimado a dizer quem sou. 'Nada ainda, nada ainda..;"

É nos enterros que costumo superar-me. Na realidade, sobrepujo-me a mim mesmo. Caminho com passo lento pelos arrabaldes floridos de ferros velhos, sigo por amplas ruas ajardinadas, plantadas de árvores de cimento e que conduzem aos buracos de terra fria. Ali, sob o penso de gaze levemente avermelhada do céu, olho com atenção companheiros corajosos sepultarem meus amigos a três metros de profundidade. Nesses momentos, a flor que me é entregue por uma mão qualquer suja de barro, jamais erra o alvo da fossa quando atirada por mim. Tenho a dose precisa de piedade, o exato grau de emoção, a nuca convenientemente inclinada. Admiram-se de que minhas palavras sejam justas. Porém, não tenho nenhum mérito: espero.

Espero há muito tempo. Por vezes, tropeço, perco a mão, deixo de acertar. Isso pouco importa, estou só nesses momentos. Assim, acordo no meio da noite e parece-me ouvir, ainda semi-adormecido, um barulho de ondas, movimento de águas a respirar. Totalmente desperto, reconheço o vento nas folhagens e o rumor infausto da cidade deserta. Quando isso ocorre, todas as artimanhas que possa empregar parecem-me ainda insuficientes para esconder minha angústia ou trajá-la com as vestes da moda.

(...)

Não existe pátria para quem desespera e, quanto a mim, sei que o mar me precede e me segue, e minha loucura está sempre pronta. Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe. Eis porque sofro, de olhos secos, este exílio. Espero ainda. Um dia chega, enfim...

IN: CAMUS, Albert. Núpcias, o verão, pp 125-126.


variações sobre um mesmo tema
:
livros, Albert Camus, Núpcias, o verão


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 12:12.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








giovedì, giugno 04, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


A contemplação era insuportável

À medida que o verão se aproximava, as noites se prolongavam, e os insones e esperançosos que andavam pela praia, remexendo nas poças, tinham os mais estranhos devaneios: de carne fragmentada em átomos, depois varridos pelo vento; de estrelas lampejando em seus corações; de rochedos, mar, nuvem e céu, assim associados propositadamente para reunir numa forma exterior os fragmentos esparsos da visão interna. Nesses espelhos - as mentes humanas -, nessas poças de água inquieta, na qual nuvens volteiam e sombras se formam e sonhos perduram, era impossível resistir ao estranho apelo que cada gaivota, flor, árvore, homem ou mulher e a própria areia branca pareciam proclamar (embora recuassem imediatamente se fossem questionados) que a verdade triunfa, a felicidade prevalece, a ordem reina. Era impossível resistir ao extraordinário estímulo para vaguear de um lado para outro à procura de um bem absoluto, algum cristal intenso, distante dos prazeres conhecidos e virtudes familiares, algo estranho aos hábitos da vida doméstica. Um estímulo isolado, duradouro, brilhante como um diamante na areia que traria segurança a seu possuidor. Além disso, complacente e suave, enquanto suas abelhas zuniam e suas moscas dançavam, a primavera estendia um manto ao seu redor, ocultava os olhos, desviava a cabeça e, por entre sombras que se deslocam e a chuva fina que cai, parecia ter-se encarregado de conhecer todas as tristezas da humanidade.

(...)

Nessa estação do ano, os que desceram até a praia para caminhar por ela a grandes passadas e perguntar ao mar e aos céus que mensagem eles transmitiam ou que visão eles confirmavam tiveram de considerar, entre os símbolos usuais da bondade divina - o pôr-do-sol sobre o mar, a palidez da aurora, o nascer da lua, os barcos de pesca contra o luar, as crianças atirando-se nos montes de grama -, alguma coisa totalmente em desarmonia com essa alegria, essa serenidade. Surgia, por exemplo, um navio cinzento, que logo desaparecia; surgia uma mancha púrpura sobre a branda superfície do mar, como se algo houvesse borbulhado imperceptivelmente e sangrado sob ele. Essa intromissão numa cena calculada para despertar as reflexões mais sublimes e levar às conclusões mais reconfortantes deteve seus passos. Seria difícil omitir essa intromissão, anular sua importância na paisagem, e durante esse passeio à beira do mar, continuar se extasiando com o fato de a beleza externa refletir a beleza interior.

Será que a Natureza completa aquilo que o homem produz? Termina o que ele começa? Com a mesma complacência via sua miséria e perdoava sua baixeza aceitando suas torturas. Sonho de compartilhar, de completar, de encontrar sozinho, na praia, uma resposta, seria então apenas a imagem num espelho, e o próprio espelho não seria mais que a superfície transparente quando forças mais refinadas repousam tranquilamente sob ela? Impaciente, desesperado, mas ao mesmo tempo resistindo a partir (pois a beleza oferece seduções, possui consolações), sentia-se que caminhar pela praia era impossível; que a contemplação era insuportável; que o espelho se quebrara.

IN: WOOLF, Virginia. Ao farol.


variações sobre um mesmo tema:
livros, Virginia Woolf, Ao farol


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 18:18.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








mercoledì, giugno 03, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


Nossas aparências são simplesmente infantis

Podia ser ela mesma, quando estava só. E era isto que precisava fazer com freqüência: pensar. Bem, nem mesmo pensar. Ficar em silêncio; ficar sozinha. E toda a existência, toda a atividade, com tudo que possuem de expansivo, brilhante, vibrante, vocal, se evaporaram. Então podia, com uma certa solenidade, retrair-se em si mesma, no âmago pontiagudo da escuridão, algo invisível para os outros. E embora continuasse tricotando, sentada bem ereta, era assim que sentia a si mesma, a seu ser, depois de libertada de todos os laços, pronta para as mais estranhas aventuras. Quando o ritmo da vida diminuía por um instante, parecia que a amplitude das experiências se tornava infinita. E, supunha, todo mundo possuía esse sentido de possibilidades ilimitadas. Todos eles, Lily, Augustus, Carmichael, deviam sentir que nossas aparências - as coisas que nos caracterizam - são simplesmente infantis. Sob elas, tudo é negro, amplo e incomensuravelmente profundo; mas de vez em quando emergimos à superfície, e é assim que as pessoas nos conhecem. Seu horizonte parecia-lhe ilimitado. Havia inúmeros lugares a que não tinha ido: as planícies da Índia; via-se abrindo a pesada cortina de couro de uma igreja romana. Esse âmago da escuridão podia ir a qualquer lugar, pois ninguém o via. Não poderiam detê-lo, pensou, enleada. Lá estavam a liberdade, a paz, e - o que era mais agradável - o poder da recuperação, de descansar numa plataforma de estabilidade. Nem sempre, enquanto indivíduo, é que se encontra esse repouso, dizia-lhe sua experiência (nesse instante executou algo extremamente difícil com suas agulhas), mas enquanto recantos de sombra. Desprendendo-se da personalidade, perdia-se tudo, a agitação, a pressa, o rebuliço; e sempre lhe subia aos lábios uma exclamação de triunfo sobre a vida quando tudo dentro dela se reunia nessa paz, nesse repouso nessa eternidade; e, detendo-se, seu olhar encontrou no exterior o raio de luz do Farol, longo e firme, o último dos três, que era o seu raio, pois de tanto olhar os três com o mesmo estado de espírito, e sempre à mesma hora, não conseguia evitar ligar-se a um deles particularmente; esse longo e persistente raio de luz era o seu. Frequentemente se surpreendia sentada olhando, com o trabalho nas mãos, até que se transformava na coisa que olhava: nessa luz, por exemplo. E a luz reacendia alguma frase que estivera adormecida no fundo de sua mente: "As crianças nunca esquecem, as crianças nunca esquecem' - que repetiria, passando a dizer: "Isso acabará, isso acabará." Então, de repente, acrescentou: "Estamos nas mãos do Senhor."

Mas imediatamente se irritou consigo mesma por ter dito isso. Quem o dissera? Não fora ela; fora levada a dizer algo que não queria. Ergueu os olhos do tricô e deparou com o terceiro feixe de luz, e teve a impressão de que seus olhos se encontravam com seus próprios olhos, e de que esse raio penetrava, como somente ela mesma poderia fazê-lo, no seu íntimo e no seu próprio coração, purificando a existência da mentira, de qualquer mentira. Ela se louvava sem vaidade ao louvar a luz, pois era austera e perscrutadora, era bela como essa luz. Estranho que, quando a pessoa está sozinha, se apega às coisas, aos seres inanimados: árvores, córregos, flores. Sentia que essas coisas expressavam; sentia que se transformavam nela mesma; sentia que a conheciam, e, num certo sentido, eram ela; sentia uma ternura irracional como (olhou o longo feixe penetrante) se fosse por si mesma. Emergiu em espirais (e ela olhava, olhava sempre, com suas agulhas em suspenso) emergiu do fundo da sua mente, erguendo-se do seu fundo, do lago do ser da sua pessoa, uma névoa, uma noiva caminhando ao encontro do amado.

O que a teria levado a dizer: "Estamos nas mãos do Senhor"?, perguntou-se. Essa insinceridade, que se esgueira por entre as verdades, irritou-a, aborreceu-a. Voltou ao tricô. Como poderia um Senhor qualquer ter feito este mundo?, perguntou-se. Sua mente sempre se agarrara ao fato de que não há lógica, ordem ou justiça; apenas sofrimento, morte e pobreza. Não há traição suficientemente baixa que o mundo não cometa; sabia disso. Nenhuma felicidade durava; sabia disso. 

(...)

A Sra. Ramsay sabia que era sempre possível sair da própria solidão através de alguma bagatela, algum objeto, algum som. Pôs-se à escuta, mas tudo estava calmo; o críquete terminara; as crianças estavam no banho; havia apenas o barulho do mar. Parou de tricotar; ergueu a longa meia castanha que oscilou por um instante em suas mãos. Com uma certa ironia em sua indagação - pois, quando uma pessoa acaba de acordar totalmente, seus relacionamentos se transformam -, olhou a firme, inexorável, implacável luz que era, ao mesmo tempo, tanto ela e tão pouco ela, e pela qual tinha devoção (acordava à noite, a via curvar-se ao redor da sua cama, riscando o chão). Mas por tudo isso - pensou, enquanto a olhava fascinada, hipnotizada, como se a luz fizesse surgir, com seus dedos de prata, algum veleiro em seu cérebro que, ao explodir, a inundaria de prazer - conhecera a felicidade, a mais perfeita felicidade, intensa felicidade. Entretanto, à medida que a luz do dia enfraquecia, e o mar perdia seu azul e se encrespava com suas ondas amarelas cor de limão, e estas se curvavam, cresciam e rebentavam na praia, o êxtase inundou seus olhos, e ondas de puro deleite precipitaram-se no fundo de sua mente, e ela sentiu: "Chega! Basta!"

IN: WOOLF, Virginia. Ao farol.


variações sobre um mesmo tema:
livros, Virginia Woolf, Ao farol


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 00:00.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








martedì, giugno 02, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


Estava sempre em silêncio

Mas seria apenas a aparência?, perguntavam as pessoas. O que havia por trás de sua beleza, seu esplendor? Teria ele estourado os miolos, perguntavam, teria morrido na semana anterior do casamento - aquele outro amor, mais antigo, do qual se ouvira falar? Ou não havia nada? Nada além de uma incomparável beleza atrás da qual ela vivia e que nada conseguia perturbar? Em algum momento de intimidade - quando histórias de grandes paixões, de amores malogrados, de ambições contrariadas se apresentavam a ela - poderia ter contado sobre quem conhecera, ou o que sentira e passara, mas nunca dissera nada. Estava sempre em silêncio. Nesses instantes sabia - sabia sem ter aprendido. Sua simplicidade penetrava no que as pessoas hábeis falsificavam. A sinceridade de seu espírito a fazia dirigir-se às pessoas tão diretamente como um fio de prumo, e pousar sobre seu objetivo com a exatidão de um pássaro, dando-lhe normalmente uma versatilidade quanto à verdade que deleitava, tranquilizava, sustentava - falsamente talvez.

IN: WOOLF, Virginia. Ao farol.


variações sobre um mesmo tema:
livrosVirginia WoolfAo farol


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 23:23.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








SEÑOR FUTURO 
       usted
es la promesa
       que nuestros pasos persiguen
       queriendo sentido y destino
RECORDAR   
Del latín re-cordis,         
volver a pasar          
por el corazón
        




"A impossibilidade de constituir o mundo em unidade evoca aqueles lugares desertos e sem água onde o pensamento chega aos seus limites. O verdadeiro esforço é se sustentar ali na medida do possível e examinar de perto a vegetação barroca de suas regiões afastadas"

Camus




   
   
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