Toda frase acaba num riso de autoironia. Clarícifer 66.6 FM Tornado (live) by Jónsi Sinking Friendships (live) by Jónsi Go Do (live) by Jónsi O Amanhã Colorido (ao vivo) por Pouca Vogal When I Grow Up (To Be A Man) by The Beach Boys The Frog Prince by Keane On Melancholy Hill by Gorillaz I’m Outta Time by Oasis Paciência por Lenine Codex by Radiohead Lover’s Spit by Broken Social Scene Leave by R.E.M. Down By The Water by PJ Harvey A Dança por Legião Urbana Plug In Baby by Muse While My Guitar Gently Weeps by The Beatles I’m The Highway by Audioslave Inside Job by Pearl Jam A Seta E O Alvo por Paulinho Moska The Limit To Your Love by Feist Don’t Be Shy by Yusuf Islam (Cat Stevens) Atoms For Peace by Thom Yorke Tudo Vai Ficar Bem por Pato Fu & Andrea Echeverri La Vida Tómbola por Manu Chao El Derecho Al Delirio por Eduardo Galeano O Mundo por Paulinho Moska, Zeca Baleiro, Lenine & Chico César Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero) por O Rappa A Violência Travestida Faz Seu Trottoir por Engenheiros do Hawaii Alucinação (Belchior cover) por Engenheiros do Hawaii The Fixer by Pearl Jam Love, Reign O’er Me by The Who Politik by Coldplay To Build A Home by The Cinematic Orchestra Minha Casa por Zeca Baleiro 6 Minutos por Otto Senhas por Adriana Calcanhotto Poema Em Linha Reta de Álvaro De Campos (Fernando Pessoa) por Paulo Autran Lost For Words by Pink Floyd Fearless by Pink Floyd True Love Will Find You In The End by Daniel Johnston Passerà (Aleandro Baldi cover) por Renato Russo If There Is A God by The Smashing Pumpkins Se Eu Quiser Falar Com Deus (ao vivo) por Elis Regina De Onde Vem A Calma por Los Hermanos The Quiet Ones by Oasis Senza Parole por Vasco Rossi Nightswimming by R.E.M. No Name #3 by Elliott Smith From The Morning by Nick Drake

Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual...


"É certo que sou uma selva e uma noite de escuras árvores; mas aquele que não temer a minha obscuridade encontrará sob os meus ciprestes sendas de rosas"
Nietzsche




Um cão anda em círculos atrás do próprio rabo

As boas novas eram só boatos?

Humores




Nem tudo está perdido. Nem sinal de pedra no peito. O horóscopo do jornal arriscou 'um belo dia'. Liguei o rádio na hora certa: era a canção que eu queria.


e-Stória


Estou ligado a cabo a tudo que acaba de acontecer...


Somos quem podemos ser

Meu perfil



Se eu fosse diferente... sabe lá como eu seria!


Dom Quixote



Muito prazer, ao seu dispor se for por amor às causas perdidas...


Em linhas tortas

top 5

Toda frase acaba num riso de autoironia.


Sopa de letrinhas

Si linguis hominum loquar
livros

Eles odeiam Albert Camus, eles só querem ler gibi...


Filmes de guerra, canções de amor





Se alguém, seja lá quem for, tiver que morrer, na guerra ou no amor, não me peça pra entender... não me peça pra escolher entre o fio ciumento da navalha e o frio de um campo de batalha...


Beijos pra torcida

Fãs de Alex

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione: uma garota, um bom combate, um gol aos 46!


Longe demais das capitais

Sobre Intermares

Nossa cidade é tão pequena e tão ingênua, tão distante do horizonte do país.


Todo mundo é uma ilha

Amigos



Não interessa o que diz o ditado, não interessa o que o Estado diz; nós falamos outra língua, moramos em outro país.


Déjà vu nunca visto

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O futuro se impõe, o passado não se aguenta...


E eu, o que faço com esses números?



Você é
1/
da humanidade.

Sondas e radares não captarão, revisores ortográficos também não.








"A gente se desfaz de uma neurose, mas não se cura de si próprio"
Sartre

Por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior.

 






venerdì, settembre 25, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


Sons, palavras são navalhas

E eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém

Escrever é um ato de confissão e como tal perscruta os mais sórdidos, vis, constrangedores e violentos sentimentos. Nunca é fácil ou sequer prudente que tamanha intimidade venha à luz. Algumas palavras expõem o mais delicado e vulnerável invólucro do ser. Outras soltam estilhaços, atingindo os demais. Assim, poucos são os que realmente se desnudam nesse ato, mantendo-se fieis ao que são e ao que pensam. A maioria ainda foca o ângulo mais favorável de si ou se resguarda em gavetas. Talvez seja melhor assim.


variações sobre um mesmo tema:


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 15:46.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








domenica, settembre 20, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


Estou me lixando para todos os seus antepassados

Trepávamos nas árvores (esses primeiros jogos inocentes recobrem-se agora na minha lembrança como de uma luz de iniciação, de presságio; mas então quem pensaria nisso?), subíamos as torrentes saltando de uma pedra para outra, explorávamos cavernas à beira-mar, escorregávamos pelas balaustradas de mármore das escadarias da vila. Foi numa dessas brincadeiras que teve origem para Cosme uma das maiores razões de brigas com os genitores, porque foi punido, injustamente, acha ele, e desde então incubou um rancor contra a família (ou a sociedade? ou o mundo em geral?) que se expressou depois na sua decisão de 15 de junho.

Para dizer a verdade, tínhamos sido proibidos de escorregar pela balaustrada de mármore das escadas, não por medo de que quebrássemos uma perna ou um braço, pois nossos pais nunca se preocuparam com isto e foi justamente por isso - penso eu - que nunca arrebentamos nada; mas porque crescendo e aumentando de peso podíamos derrubar as estátuas dos ancestrais que papai mandara colocar nas últimas pilastras das balaustradas em cada lance de escada. De fato, uma vez Cosme já havia jogado no chão um trisavô bispo, com mitra e tudo; foi punido e desde então aprendeu a frear um instante antes de atingir o fim da rampa e a saltar exatamente um segundo antes de bater contra a estátua. Também aprendi, pois o acompanhava em tudo, só que eu, sempre mais modesto e prudente, já saltava lá pelo meio da rampa, ou então escorregava aos bocados, com freadas contínuas. Um dia, ele descia pela balaustrada como uma flecha, e quem é que subia pelas escadas? O abade Fauchelafleur, que andava às tontas com o breviário aberto no peito mas com olhar fixo no vazio feito uma galinha. Se pelo menos estivesse meio adormecido como de hábito! Não, estava num daqueles momentos raros, de extrema atenção e apreensão com todas as coisas. Vê Cosme, pensa: balaustrada, estátua, agora nos chocamos, vão dar bronca em mim também (porque a cada molecagem nossa gritavam com ele também, que não sabia tomar conta de nós), e se lança sobre a balaustrada para conter meu irmão. Cosme choca-se com o abade, arrasta-o para baixo (era um velhinho que parecia só ter ossos), não pode frear, bate com impulso redobrado na estátua do nosso antepassado Caçaguerra Chuvasco, cruzado na Terra Santa, e tombam todos no pé da escadaria: o cruzado em pedaços (era de gesso), o abade e ele. Foram repreensões a não acabar mais, chicotadas, curativos, castigos a pão e sopa fria. E Cosme, que se julgava inocente pois a culpa não fora sua mas do abade, saiu-se com aquela tirada feroz: "Estou me lixando para todos os seus antepassados, senhor meu pai!", o que já anunciava sua vocação de rebelde.

IN: CALVINO, Italo. O barão nas árvores, pp 11-12.


variações sobre um mesmo tema:


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 13:13.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








venerdì, settembre 18, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


O mito de Sísifo

Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança.

Se dermos crédito a Homero, Sísifo era o mais sábio e prudente dos mortais. Mas, segundo uma outra tradição, ele tendia para o ofício de bandido. Não vejo contradição nisso. As opiniões diferem sobre os motivos que o levaram a ser o trabalhador mais inútil dos infernos. Censuram-lhe primeiro certa leviandade com os deuses. Ele revelou seus segredos. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai estranhou seu desaparecimento e se queixou a Sísifo. Este, que estava sabendo do rapto, ofereceu-se para instruir Asopo, com a condição de que este desse água à cidadela de Corinto. Preferiu a benção da água aos raios celestes. E como castigo acabou nos infernos. Homero nos conta também que Sísifo havia acorrentado a Morte. Plutão não pôde suportar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Enviou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.

Contam também que Sísifo, já perto de morrer, quis imprudentemente pôr à prova o amor de sua esposa. Ordenou que ela jogasse seu corpo insepulto no meio da praça pública. Sísifo foi para os infernos. E ali, irritado por uma obediência, tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão a permissão de voltar à Terra para castigar a mulher. Mas quando tornou a ver a face deste mundo, a desfrutar da água e do sol, das pedras tépidas e do mar, não quis voltar para as sombras infernais. As chamadas, cóleras e advertências nada conseguiram. Durante muitos anos ele continuou morando em frente à curva do golfo, com o mar resplandecente e os sorrisos da Terra. Foi preciso uma intervenção dos deuses. Mercúrio segurou o audaz pelo pescoço e, tirando-o de suas alegrias, trouxe-o à força de volta para o inferno, onde sua rocha estava já preparada.

Já devem ter notado que Sísifo é o herói absurdo. Tanto por causa de suas paixões como por seu tormento. Seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida lhe valeram esse suplício indizível no qual todo o ser se empenha em não terminar coisa alguma. É o preço que se paga pelas paixões desta Terra. Nada nos dizem sobre o Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. No caso deste, só vemos todo o esforço de um corpo tenso a erguer uma pedra enorme, empurrá-la e ajudá-la a subir uma ladeira cem vezes recomeçada; vemos o rosto crispado, a bochecha colada contra a pedra, o socorro de um ombro que recebe a massa coberta de argila, um pé que a retém, a tensão nos braços, a segurança totalmente humana de duas mãos cheias de terra. Ao final deste prolongado esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a meta é atingida. Sísifo contempla então a pedra despencando em alguns instantes até esse mundo inferior de onde ele terá que tornar a subi-la até os picos. E volta à planície.

É durante esse regresso, essa pausa que Sísifo me interessa. Um rosto que padece tão perto das pedras já é pedra ele próprio! Vejo esse homem descendo com passos pesados e regulares de volta para o tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora, que é como uma respiração e que se repete com tanta certeza quanto sua desgraça, essa hora é a da consciência. Em cada um desses instantes, quando ele abandona os cumes e mergulha pouco a pouco nas guaridas dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte que sua rocha.

Este mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria a sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida. A clarividência que deveria ser o seu tormento consuma, ao mesmo tempo, a sua vitória. Não há destino que não possa ser superado com o desprezo.


Assim como, em certos dias, a descida é feita na dor, também pode ser feita na alegria. Esta palavra não é exagerada. Também imagino Sísifo voltando para a sua rocha, e a dor existia desde o princípio. Quando as imagens da Terra se aferram com muita força à lembrança, quando o chamado de felicidade se torna premente demais, então a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitória da rocha, é a própria rocha. O desespero imenso é coisa pesada demais para se carregar. São as nossas noites de Getsêmani. Mas as verdades esmagadoras desaparecem ao serem reconhecidas. Édipo, por exemplo, primeiramente obedece ao destino sem saber disso. A partir do momento em que sabe, sua tragédia começa. Mas no mesmo momento, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o liga ao mundo é a mão fresca de uma jovem. Uma frase desmedida ressoa então: "Apesar de tantas provas, minha idade avançada e a grandeza de minha alma me levam a julgar que está tudo bem". O Édipo de Sófocles, como o Kirilov de Dostoievski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga coincide com o heroísmo moderno.

Ninguém descobre o absurdo sem ficar tentado a escrever algum manual de felicidade. "E como assim, por vias tão estreitas...?" Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce necessariamente da descoberta absurda. Às vezes ocorre também que o sentimento do absurdo nasce da felicidade. "Creio que está tudo bem", diz Édipo, e esta frase é maldita. Ressoa no universo feroz e limitado do homem e ensina que nem tudo foi experimentado até o fim. Ela expulsa deste mundo um deus que havia entrado nele com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um assunto humano, que deve ser acertado entre os homens.

Toda a alegria silenciosa de Sísifo consiste nisso. Seu destino lhe pertence. A rocha é sua casa. Da mesma forma, o homem absurdo manda todos os ídolos se calarem quando contempla seu tormento. No universo que repentinamente recuperou o silêncio, erguem-se as milhares de vozes maravilhadas da Terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz que sim e seu esforço não terá interrupção. Se há um destino pessoal, não há um destino superior ou ao menos só há um, que ele julga fatal e desprezível. De resto, sabe que é dono de seus dias. No instante sutil em que o homem se volta para sua vida, Sísifo, regressando para sua rocha, contempla essa sequência de ações desvinculadas que se tornou seu destino, criado por ele, unido sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte. Assim, convencido da origem totalmente humana de tudo que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre em marcha. A rocha ainda rola.

Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram o seu fardo. Mas Sísifo ensina a felicidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Esse universo, doravante sem dono, não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

IN: CAMUS, Albert. O mito de Sísifo, pp 137-141.


O absurdo e o suicídio
← A liberdade absurda


variações sobre um mesmo tema
:


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 08:08.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








giovedì, settembre 17, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


O absurdo e o suicídio

(A propósito do Setembro Amarelo)

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. Trata-se de jogos; é preciso primeiro responder. E se é verdade, como quer Nietzsche, que um filósofo, para ser estimado, deve pregar com o seu exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, porque ela vai anteceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso ir mais fundo até torná-las claras para o espírito.

Se eu me pergunto por que julgo que tal questão é mais premente que tal outra, respondo que pelas ações a que ela se compromete. Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranquilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. É profundamente indiferente saber qual dos dois, a Terra ou o Sol, gira em torno do outro. Em suma, é uma futilidade. Mas vejo, em contrapartida, que muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas ideias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). Julgo, então, que o sentido da vida é a mais premente das perguntas. Como responder a ela? Em todos os problemas essenciais, e entendo por isto aqueles que oferecem perigo de morte ou multiplicam a paixão de viver, só há dois métodos de pensamento: o de La Palice¹ e o de Dom Quixote. Só o equilíbrio entre a evidência e o lirismo nos permite aceder ao mesmo tempo à emoção e à clareza. Num assunto ao mesmo tempo tão humilde e tão cheio de pateticismo, a sábia e clássica dialética tem que dar lugar, penso, a uma atitude de espírito mais modesta que proceda ao mesmo tempo do bom senso e da simpatia.

Sempre se tratou o suicídio apenas como um fenômeno social. Aqui, pelo contrário, trata-se, para começar, da relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto como desses se prepara no silêncio do coração, da mesma maneira que uma grande obra. O próprio homem o ignora. Uma noite, ele dá um tiro em si mesmo ou se joga pela janela. Diziam-me um dia, a respeito de um gerente de imóveis que havia se matado, que cinco anos antes ele perdera sua filha, que desde então tinha mudado muito e que essa história "o deixara atormentado". Não se poderia desejar palavra mais exata. Começar a pensar é começar a ser atormentado. A sociedade não tem muito a ver com esses começos. O verme se encontra no coração do homem. Lá é que se deve procurá-lo. Esse jogo mortal que vai da lucidez diante da existência para fora da luz deve ser acompanhado e compreendido.

Há muitas causas para um suicídio, e nem sempre as causas mais aparentes foram as mais eficazes. Raramente alguém se suicida por reflexão (hipótese, no entanto, não descartada). O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável. Os jornais falam com frequência de "aflições íntimas" ou de "doença incurável". Estas explicações são válidas. Mas teríamos que saber se no mesmo dia um amigo do desesperado não o tratou de modo indiferente. Ele é que é o culpado. Pois isto pode ser suficiente para precipitar todos os rancores e todos as prostrações ainda em suspensão.²

Mas se é difícil fixar o instante preciso, o percurso sutil em que o espírito apostou na morte, é mais simples extrair do gesto em si as consequências que ele supõe. Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos. Mas não prossigamos nestas analogias e voltemos às palavras correntes. Trata-se apenas de confessar que isso "não vale a pena". Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos motivos, o primeiro dos quais é o costume. Morrer por vontade própria supões que se reconheceu, mesmo instintivamente, o caráter ridículo desse costume, a ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.

Quão é então o sentimento incalculável que priva o espírito do sono necessário para a vida? Um mundo que se pode explicar. mesmo com raciocínios errôneos é um mundo familiar. Mas num universo repentinamente privado de ilusões e de luzes, o homem se sente um estrangeiro. É um exílio sem solução, porque está privado das lembranças de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida. Esse divórcio entre o homem e sua vida, o ator e seu cenário é propriamente o sentido do absurdo. E como todos os homens sadios já pensaram no seu próprio suicídio, pode-se reconhecer, sem maiores explicações, que há um laço direto entre tal sentimento e a aspiração ao nada.

O tema deste ensaio é justamente essa relação entre o absurdo e o suicídio, a medida exata em que o suicídio é uma solução para o absurdo. Pode-se postular a princípio que as ações de um homem que não trapaceia devem ser reguladas por aquilo que ele considera verdadeiro. A crença no absurdo da existência deve então comandar sua conduta. É uma curiosidade legítima perguntar, com clareza e sem falso pateticismo, se uma conclusão desta origem exige que se abandone de imediato uma condição incompreensível. Falo aqui, evidentemente, dos homens dispostos a estar de acordo consigo mesmos.

Exposto em termos claros, este problema pode parecer ao mesmo tempo simples e insolúvel. Mas supõe-se erroneamente que perguntas simples levam a respostas não menos simples e que a evidência implica evidência. A priori, e invertendo os termos do problema, parece que ou você se mata ou não se mata, só há duas soluções filosóficas, a do sim e a do não. Seria fácil demais. Mas teremos que pensar naqueles que não param de interrogar, sem chegar a nenhuma conclusão. E não estou ironizando: trata-se de maioria. Vejo também que aqueles que respondem que não agem como se pensassem sim. Na verdade, se aceitarmos o critério nietzschiano, eles pensam sim de uma maneira ou de outra. Aqueles que se suicidam, pelo contrário, costumam ter certeza do sentido da vida. Tais contradições são constantes. Pode-se mesmo dizer que nunca foram tão vivas como neste ponto em que a lógica, ao contrário, parece tão desejável. É lugar-comum comparar as teorias filosóficas com o comportamento daqueles que as professam. Mas é preciso dizer que entre os pensadores que negaram um sentido à vida, nenhum, exceto Kirílov, que pertence à literatura, Peregrinos, que nasce da lenda,³ e Jules Lequier, do domínio da hipótese, levou sua lógica ao ponto de rejeitar esta vida. Em tom de troça, muitas vezes se cita Schopenhauer, que fazia o elogio do suicídio diante de uma mesa bem servida. Mas não vejo nisto motivo para brincadeira. Esta maneira de não levar o trágico muito a sério não é tão grave assim, mas ela acaba condenando o seu homem.

Diante destas contradições e destas obscuridades, será então preciso acreditar que não há relação alguma entre a opinião que se tem sobre a vida e o gesto que se faz para abandoná-la? Não exageramos nada neste sentido. No apego de um homem à sua vida há algo mais forte que todas as misérias do mundo. O juízo do corpo tem o mesmo valor que o do espírito, e o corpo recua diante do aniquilamento. Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o de pensar. Nesta corrida que todo dia nos precipita um pouco mais em direção à morte, o corpo mantém uma dianteira irrecuperável. Enfim, o essencial desta contradição reside no que vou chamar de esquiva, porque ela é ao mesmo tempo menos e mais que a distração no sentido pascaliano. A esquiva mortal que constitui o terceiro tema deste ensaio é a esperança. Esperança de uma outra vida que é preciso "merecer", ou truque daqueles que vivem não pela vida em si, mas por alguma grande ideia que a ultrapassa, sublima, lhe dá um sentido e a trai.

Tudo contribui, assim, para embaralhar as cartas. Não foi à toa que até aqui jogamos com as palavras, fingindo acreditar que negar um sentido à vida leva obrigatoriamente a declarar que ela não vale a pena ser vivida. Na verdade, não há nenhuma medida obrigatória entre estes dois juízos. É preciso apenas não se extraviar entre confusões, divórcios e inconsequências apontadas até aqui. É preciso descartar tudo e ir direto ao verdadeiro problema. As pessoas se matam porque a vida não vale a pena ser vivida, eis uma verdade incontestável - infecunda, entretanto, porque é um truísmo. Mas será que esse insulto à existência, esse questionamento em que mergulhamos, provém do fato de ela não ter sentido? Será que seu absurdo exige que escapemos dela, pela esperança ou pelo suicídio? Eis o que está preciso esclarecer, perseguir e ilustrar, descartando todo o resto. O absurdo comanda a morte, temos que dar prioridade a este problema sobre os outros, independentemente de todos os métodos de pensamento e brincadeiras do espírito desinteressado. As nuanças, as contradições, a psicologia que um espírito "objetivo" sempre sabe introduzir em todos os problemas não têm lugar nessa busca e nessa paixão. O que faz falta aqui é um pensamento injusto, quer dizer, lógico. Isto não é fácil. É sempre cômodo ser lógico. É quase impossível ser lógico a fundo. Os homens que morrem pelas próprias mãos seguem até o fim a inclinação do seu sentimento. A reflexão sobre o suicídio me dá então a oportunidade de enunciar o único problema que me interessa: há uma lógica que chegue até a morte? Só posso sabê-lo perseguindo, sem paixão desordenada, com a única luz da evidência, o raciocínio cuja origem indico aqui. É o que chamo de um raciocínio absurdo. Muitos já o começaram. Não sei se o mantiveram.

Quando Karl Jaspers, revelando a impossibilidade de constituir o mundo uma unidade exclama: "Essa limitação me conduz a mim mesmo, onde não me escondo atrás de um ponto de vista objetivo que eu só represento, onde nem eu mesmo, nem a existência do outro, podem mais se tornar objeto para mim", ele está evocando, após muitos outros, aqueles lugares desertos e sem água onde o pensamento chega aos seus limites. Após muitos outros, sim, sem dúvida, mas todos com grande pressa de fugir dali! Muitos homens, entre os quais os mais humildes, chegaram a esta última curva em que o pensamento vacila. Abdicaram então do que tinham de mais valioso, que era a sua vida. Outros, príncipes do espírito, também abdicaram, mas foi no suicídio do seu pensamento, na sua revolta mais pura. O verdadeiro esforço, pelo contrário, é se sustentar ali na medida do possível e examinar de perto a vegetação barroca de suas regiões afastadas. A tenacidade e a clarividência são espectadores privilegiados desse jogo desumano em que o absurdo, a esperança e a morte trocam suas réplicas. O espírito pode então analisar as figuras desta dança ao mesmo tempo elementar e sutil, antes de ilustrá-las e revivê-las ele mesmo.

¹La Palice, senhor de (Jacques de Chabannes (1470-1525), caracterizava-se por repetir o óbvio. Seu nome tornou-se marca de obviedade, tal como, entre nós, o Conselheiro Acácio machadiano. (N. do T.)
²Não percamos a oportunidade de sublinhar o caráter deste ensaio. Na verdade, o suicídio pode estar ligado a considerações muito mais honrosas. Por exemplo, os suicídios políticos, chamados de protesto, na revolução chinesa.
³Ouvi falar de um êmulo de Peregrinos, escritor do pós-guerra, que, depois de haver terminado seu primeiro livro, suicidou-se para chamar atenção para a obra. A atenção, de fato, foi chamada, mas o livro foi considerado ruim.

IN: CAMUS, Albert. O mito de Sísifo, pp 17-23.




Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 20:25.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








venerdì, settembre 04, 2015
"Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse" Virginia Woolf


But I better be quiet now

I'm tired of wasting my breath

Top 5 (regras no link) Silêncio (cíclico e atemporal):

#5

#4


#3
Maybe I have a problem, but that's not what I wanted to say; I prefer to say nothing...

#2

#1


Clara... Clarinha... Clarice.
Hora do mergulho: 18:18.
Senta a pua, quebra o pau, manda brasa, solta a franga, sai de baixo, baixa a lenha, manda ver, roda a baiana!

Por amor às causas perdidas!








SEÑOR FUTURO 
       usted
es la promesa
       que nuestros pasos persiguen
       queriendo sentido y destino
RECORDAR   
Del latín re-cordis,         
volver a pasar          
por el corazón
        




"A impossibilidade de constituir o mundo em unidade evoca aqueles lugares desertos e sem água onde o pensamento chega aos seus limites. O verdadeiro esforço é se sustentar ali na medida do possível e examinar de perto a vegetação barroca de suas regiões afastadas"

Camus




   
   
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